
Jul 31, 2026
por Rafaela Varella, Diretora criativa da HAPU
como a geração z transformou consumo consciente em código cultural
o fim da era do excesso como aspiração
por muito tempo, consumir mais era uma forma de demonstrar sucesso. vídeos de haul, “compre comigo”, unboxings e grandes coleções transformaram a aquisição de produtos em entretenimento e símbolo de conquista. ter novidades, mostrar compras e acumular itens faziam parte de uma lógica em que consumo e identidade caminhavam juntos.
mas esse comportamento começa a perder força entre a geração z. em um cenário marcado por custo de vida elevado, crise climática, excesso de informação e maior consciência sobre hábitos de consumo, acumular deixou de representar necessariamente desejo. em alguns contextos, passou a transmitir ansiedade, desperdício e falta de intenção.
é nesse movimento que surge o underconsumption core: uma estética e comportamento baseados em comprar menos, usar melhor e valorizar o que já existe.
quando ter menos ganha valor simbólico
o underconsumption core não nasce apenas como uma resposta econômica. ele também representa uma mudança na forma como a geração z enxerga consumo e identidade.
durante anos, o mercado incentivou a ideia de que sempre existia algo novo para desejar: uma nova tendência, uma nova coleção, um novo produto indispensável. agora, parte dessa geração começa a questionar essa lógica e encontra valor justamente na capacidade de resistir ao impulso constante de compra.
o novo símbolo de status deixa de ser mostrar uma sacola cheia e passa a ser demonstrar repertório. saber combinar uma mesma peça de diferentes formas, cuidar do que já possui, encontrar produtos em brechós ou escolher algo durável passam a comunicar intenção e personalidade.
o “eu tenho o suficiente” se torna uma afirmação cultural em uma economia construída a partir da ideia de que sempre falta alguma coisa.
do consumo impulsivo para o consumo consciente
essa mudança também revela uma relação mais complexa da geração z com marcas. essa geração cresceu sendo impactada por publicidade personalizada, creators indicando produtos diariamente e algoritmos capazes de transformar qualquer item em desejo.
ao mesmo tempo, desenvolveu ferramentas para questionar esse processo. pesquisa avaliações, compara preços, busca opiniões em comunidades, acompanha experiências reais de outros consumidores e entende melhor os mecanismos que influenciam suas decisões.
o consumo deixa de ser apenas uma resposta imediata ao desejo e passa a envolver contexto. quem produziu? quanto tempo vai durar? realmente preciso disso? existe uma relação com esse produto além da compra?
o brechó como escolha principal
um dos maiores símbolos desse movimento é a transformação do mercado de segunda mão. antes associado a uma alternativa econômica ou necessidade, o brechó passa a ocupar um espaço de escolha estética, cultural e estratégica.
garimpar uma peça única, encontrar uma marca vintage ou repetir combinações de roupas antigas ganha valor justamente porque demonstra curadoria. a peça não vale apenas pelo produto, mas pela história, pela originalidade e pela capacidade de representar quem usa.
a mesma lógica aparece em outros territórios: móveis restaurados, câmeras antigas, objetos herdados, hobbies manuais e práticas que valorizam manutenção em vez de substituição constante.
o novo luxo é a intenção
o underconsumption core não significa rejeição completa ao consumo. a geração z continua comprando, descobrindo marcas e criando desejos. a mudança está no critério utilizado para escolher.
o valor passa a estar na relação construída com o produto. uma peça usada muitas vezes, um objeto cuidado por anos ou uma compra feita com propósito carregam uma narrativa mais forte do que uma aquisição descartada rapidamente.
nesse contexto, o consumo deixa de ser apenas demonstração de poder de compra e passa a funcionar como demonstração de consciência, repertório e identidade.
o que isso muda para marcas
para marcas, essa mudança representa um desafio importante. durante décadas, muitas estratégias foram construídas a partir da ideia de novidade constante: lançar mais, criar urgência e transformar compra em recompensa.
mas uma geração que questiona excesso exige outro tipo de relação. marcas precisam construir valor além do desejo imediato, mostrando durabilidade, contexto, propósito e conexão real com a vida das pessoas.
o produto deixa de ser apenas algo para adquirir e passa a precisar justificar sua presença na rotina do consumidor.
na hapu, analisamos movimentos culturais como o underconsumption core para entender como mudanças de comportamento impactam consumo, comunicação e construção de marca. transformar tendências em estratégia exige olhar além da estética e compreender os valores que fazem esses movimentos ganharem força. se a sua marca quer acompanhar as novas formas de consumir da geração z, entre em contato com a gente.