
6 de fev. de 2026
por Rafaela Varella, Diretora criativa da HAPU
como a maturidade digital está mudando a forma de consumir conteúdo, marcas e plataformas
durante anos, o algoritmo foi apresentado como um facilitador da experiência digital. recomendar conteúdos, conectar interesses e organizar o excesso de informação parecia um avanço inevitável da internet. em 2026, a relação da geração z com esse sistema muda de natureza. feeds cada vez mais previsíveis, saturados de branded content e estímulos repetitivos, passam a gerar a sensação de consumo automático, em que o tempo é gasto sem necessariamente construir valor.
o que emerge é um comportamento mais atento à mediação do conteúdo. a geração z começa a questionar não apenas o que consome, mas por que está consumindo aquilo e quem está decidindo essa ordem. essa desconfiança não surge por rejeição à tecnologia, mas por familiaridade com ela. como primeira geração nativa de plataformas algorítmicas, a gen z cresceu entendendo intuitivamente seus mecanismos, reconhecendo padrões de repetição, monetização e priorização paga.
quando o feed passa a parecer excessivamente interessado, a confiança se rompe. o algoritmo deixa de ser percebido como um aliado e passa a ser entendido como um sistema orientado a engajamento, retenção e publicidade, nem sempre alinhado ao interesse real do usuário. a resposta a esse cenário é a busca por mais autonomia nas escolhas digitais e a redução da dependência das plataformas como mediadoras absolutas do consumo.
esse deslocamento já aparece de forma concreta no comportamento digital.
cresce o consumo de conteúdos em que a escolha é ativa, como abrir o youtube e decidir o que assistir, assinar newsletters, acompanhar blogs e criadores específicos. ganham força ambientes de circulação mais controlada, como close friends, grupos fechados, servidores no discord, chats privados e comunidades segmentadas, onde a lógica é a troca qualificada e não a performance para grandes audiências.
em paralelo, hobbies offline voltam a ganhar espaço como forma de escapar do consumo contínuo mediado por algoritmos. leitura, corrida, atividades manuais, encontros presenciais e rotinas menos documentadas passam a fazer parte desse movimento de desaceleração. sair do feed infinito representa, para muitos jovens, uma recuperação de autonomia sobre o tempo, a atenção e a própria experiência digital.
quando a geração z passa a desconfiar do algoritmo, o consumo deixa de ser passivo e se torna decidido. essa mudança altera profundamente a lógica de descoberta, influência e construção de marca. em um cenário onde a escolha volta a ser do usuário, relevância deixa de ser empurrada pelo sistema e passa a ser construída por contexto, afinidade e valor real percebido.
para entender a geração z hoje, é essencial reconhecer que a maturidade digital não afasta esse público da internet, mas redefine como, onde e por que ele escolhe estar presente.
