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Geração Z e tecnologia: por que os cyberdecks estão tornando a tecnologia mais pessoal

por Rafaela Varella, Diretora criativa da HAPU

2 de out. de 2026

Entre hardware DIY, nostalgia digital e estética hiperpersonalizada, a Geração Z está redescobrindo o valor de entender, modificar e construir a própria tecnologia

Quando a tecnologia deixa de ser uma caixa-preta

Por quase duas décadas, a tecnologia de consumo seguiu uma direção bastante clara: tornar tudo mais simples. Smartphones absorveram câmeras, tocadores de música, mapas, agendas e dezenas de outros objetos, enquanto interfaces passaram a esconder processos complexos atrás de poucos gestos. Essa transformação democratizou o acesso a ferramentas extremamente sofisticadas, mas também criou uma relação cada vez mais distante entre usuários e funcionamento. Quanto menos precisamos entender sobre um dispositivo, menos possibilidades temos de interferir nele. É nesse contexto que um objeto aparentemente estranho começou a ganhar atenção entre jovens na internet: o cyberdeck.   


O cyberdeck e o retorno do faça você mesmo


Cyberdecks são pequenos computadores montados manualmente a partir de componentes como Raspberry Pi, tela, teclado e bateria. O conceito vem da ficção cyberpunk e já existia em comunidades de hardware e computação DIY, mas ganhou uma nova leitura entre jovens creators. Em vez de dispositivos utilitários, começaram a surgir computadores construídos dentro de bolsas em formato de concha, Polly Pockets, estojos de Pokémon, caixas de joias e objetos encontrados em brechós. Alguns funcionam como e-readers, outros armazenam música, registram áudio ou executam ferramentas criadas pelo próprio usuário.    

A aparente inutilidade desses dispositivos é justamente o que torna o fenômeno interessante. Pessoas estão gastando horas aprendendo eletrônica, programação e hardware para construir objetos que, em muitos casos, fazem menos coisas do que o smartphone que já carregam no bolso. O valor não está apenas na função final, mas no processo necessário para chegar até ela.


Quando a dificuldade também vira valor


O cyberdeck aparece junto de outros comportamentos que indicam uma relação diferente da Geração Z com tecnologia. Câmeras digitais antigas, fotografia em filme, journaling, knitting clubs, dumbphones e analog bags passaram a fazer parte do repertório jovem em 2026, em um contexto associado à fadiga de redes sociais e à busca por experiências mais tangíveis.

Mas o cyberdeck acrescenta uma contradição importante: ele não rejeita tecnologia. Ele exige mais tecnologia. Construir um dispositivo próprio significa escolher componentes, conectar peças, instalar sistemas, programar funções, pesquisar tutoriais e lidar com erros. O que um smartphone esconde atrás de uma interface intuitiva volta a ficar visível. O processo deixa de ser um obstáculo e passa a fazer parte da experiência.

O professor Jason Farman discute justamente essa relação entre tecnologia e atrito, questionando a ideia de que todo avanço deveria necessariamente reduzir a quantidade de esforço exigida do usuário.


A geração do clique está descobrindo o prazer de construir


Essa mudança ganha outra dimensão quando colocada ao lado da inteligência artificial. À medida que ferramentas conseguem escrever, programar, pesquisar, editar e produzir imagens com cada vez menos esforço, surge também uma valorização da experiência de ter feito alguma coisa. O conceito de frictionmaxxing, discutido pelo The Field Test a partir dos cyberdecks, descreve justamente essa escolha deliberada por processos menos eficientes quando a própria dificuldade produz aprendizado, satisfação ou vínculo com o resultado.  

Durante décadas, tecnologia boa significou fazer alguma coisa em menos etapas. Agora, existe espaço para uma lógica complementar: fazer algo mais difícil porque entender como aquilo funciona também possui valor.


A nostalgia da Geração Z não é exatamente pelo passado


A estética dos cyberdecks também ajuda a entender a relação da Geração Z com tecnologia antiga. Plásticos transparentes, botões, telas pequenas, fios aparentes e formatos estranhos remetem à cultura visual dos anos 1990 e 2000. Mas esse interesse não parece representar simplesmente vontade de voltar a 2003.

O que esses objetos representam é uma época em que tecnologias possuíam identidades muito mais distintas. Telefones tinham formatos diferentes, computadores podiam ser coloridos, MP3 players carregavam identidades visuais próprias e páginas da internet eram altamente customizáveis. A tecnologia parecia estar descobrindo que forma poderia assumir.  

Hoje, grande parte da experiência digital acontece em dispositivos visualmente semelhantes e dentro de um número reduzido de sistemas e plataformas. Interfaces foram otimizadas até desaparecerem e a personalização passou a acontecer dentro de limites bastante definidos.

Por isso, colocar um computador dentro de uma bolsa de sereia é culturalmente mais interessante do que sua utilidade sugere. Existe ali uma pergunta que a tecnologia de consumo deixou de fazer com tanta frequência: por que um computador precisa ser desse jeito?   


Tecnologia como extensão da identidade


Essa lógica aproxima os cyberdecks de outros comportamentos que já aparecem na cultura jovem. Blogs recuperam a ideia de possuir um espaço digital próprio. O handmade valoriza sinais de intervenção individual. Câmeras analógicas devolvem limitações ao processo de registrar imagens. Os cyberdecks levam essa busca para o próprio dispositivo.

Em todos esses casos, existe uma tentativa de recuperar agência dentro da tecnologia. O usuário não apenas escolhe entre opções oferecidas por uma empresa. Ele interfere, modifica, combina e decide como aquela ferramenta deve existir.    

Essa é uma diferença importante em relação à personalização oferecida pelas grandes plataformas. Escolher um wallpaper é personalizar. Construir o dispositivo que exibe o wallpaper é outra relação completamente diferente com tecnologia.


Quando mulheres entram no hardware sem abandonar sua estética


Um dos aspectos mais relevantes do fenômeno é a circulação recente de cyberdecks construídos por mulheres jovens. Creators mostram componentes, documentam erros, publicam tutoriais e ensinam outras pessoas a construir seus próprios dispositivos, muitas vezes sem formação prévia em ciência da computação.    

Essa combinação entre estética hiperfeminina e conhecimento técnico também questiona uma separação histórica entre tecnologia considerada “séria” e interesses associados ao universo feminino. Um computador rosa dentro de uma bolsa com pérolas continua exigindo conhecimento de hardware. O código não se torna menos complexo porque o objeto é visualmente delicado.

Para a Geração Z, tecnologia pode ser parte da identidade sem exigir que a pessoa abandone os outros códigos que compõem essa identidade. Moda e programação podem coexistir. Fashion e hardware podem pertencer ao mesmo repertório.


O que os cyberdecks revelam sobre o futuro da tecnologia


É improvável que cyberdecks substituam smartphones. São trabalhosos, pouco práticos e exigem um nível de curiosidade que produtos de massa foram justamente desenhados para eliminar. Mas tendências pequenas podem ser culturalmente importantes quando condensam insatisfações maiores.

Nesse caso, o que aparece é uma demanda por uma tecnologia mais apropriável: modificável, reparável, compreensível e capaz de refletir necessidades específicas. Não significa rejeitar conveniência. Significa questionar se eficiência deve ser o único critério para definir uma boa relação com tecnologia.

Um dispositivo pode fazer menos e despertar mais curiosidade. Pode exigir mais tempo e devolver aprendizado. Pode ser menos otimizado e representar melhor quem o construiu.

A Geração Z cresceu cercada pela versão mais intuitiva da tecnologia que já existiu. Agora, parte dela parece interessada em olhar atrás da interface. Os cyberdecks representam justamente essa vontade de descobrir quanto da tecnologia do futuro ainda pode ser construído pelas próprias mãos.   


Cultura como ponto de partida para estratégia


Aqui na HAPU, somos uma agência de curadores culturais e acompanhamos de perto as transformações que estão redefinindo a relação da Geração Z com tecnologia, identidade e cultura digital. Usamos inteligência cultural e marketing geracional para entender o que tendências aparentemente pequenas revelam sobre mudanças maiores em comportamento de consumo e comunicação de marcas. Se a sua marca quer compreender os sinais culturais antes que eles se tornem consenso, entre em contato com a HAPU.

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a HAPU é uma agência de comunicação full-service especializada em geração z, público jovem e novas gerações. através da nossa metodologia Z2Z, transformamos comportamento, cultura e inteligência geracional em estratégia para marcas que querem construir relevância com os novos consumidores.

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